Na região Sudeste, o empresariado mineiro ainda tem sido mais conservador na hora de oferecer uma oportunidade de trabalho para o público trans e travestis. A afirmação é da advogada e empresária, fundadora do site Transempregos, Márcia Rocha, lembrando que a grande barreira tem sido o preconceito. “Minas é um Estado muito difícil nesse aspecto. A gente acha que o nordestino é muito preconceituoso, mas lá na região tem havido contratações. O grande problema é o preconceito. Acham que a pessoa é prostituta, promíscua, mas é uma questão de as empresas darem oportunidade, de empregar uma pessoa trans para ver que é bom, que dá resultados”, afirmou durante o Seminário Estadual de Empregabilidade Trans e Travestis, realizado em Belo Horizonte.
        Mesmo com todas as barreiras ainda enfrentadas pelo público trans e travestis, o site Transempregos tem conseguido ampliar as oportunidades de trabalho para esse segmento. Desde 2014, quando foi criado, mais de 300 pessoas em todo o país já foram contratadas. “Neste mês, já foram sete contratados. Nos últimos dez dias, conseguimos dez vagas. Tem sido quase uma pessoa contratada por dia. Estamos realmente contentes com esse resultado. Dentro de dez anos, espero que essa questão trans de empregabilidade esteja resolvida”, disse Márcia Rocha, que deixou um recado para o empresariado mineiro: “Dê oportunidade de emprego, converse, sinta a pessoa. Se ela for boa, contrate. Se você  precisa de uma pessoa competente trabalhando, produzindo na sua  empresa, às vezes essa pessoa pode ser trans. Tem que vencer o preconceito e dar oportunidades”.
        Durante o seminário, realizado pelas secretarias de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac); de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese), pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a secretária de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social, Rosilene Rocha, salientou que é necessário qualificar o público trans e travestis e criar oportunidades de emprego, além de enfrentar esse preconceito da sociedade em geral.
        “Esse segmento sofre mais as inflexões no mundo do trabalho porque, historicamente, teve menos acesso aos postos de trabalho não só pelo preconceito da sociedade em geral, mas também porque  o público LGBT tem maior índice de abandono escolar, porque o ambiente não é acolhedor, sofre  bullying. Então, esse seminário é muito importante, porque estamos discutindo as grandes dificuldades para a empregabilidade e qual a qualificação profissional que esse segmento prefere”, disse Rosilene Rocha, lembrando que no seminário estavam presentes representantes do governo, da sociedade civil, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o público  trans e travestis, onde se discutiu políticas públicas que podem garantir mais e melhores oportunidades de trabalho para esse segmento.
        A secretária lembrou também uma experiência exitosa de qualificação profissional de 25 trans e travestis, realizada pela Sedese e Sedpac, no ano passado, no Triângulo Mineiro.  Segundo Rosilene Rocha, uma turma que fez o curso de cerimonial e outra de produção de eventos culturais, ao término da qualificação, teve a oportunidade de fazer um estágio no cerimonial do governador Fernando Pimentel, durante o Fórum  de Governo realizado na região.   “Em todos os cursos do governo, a gente tem priorizado esse público (trans e travestis), porque quanto mais se mais se aumentam as oportunidades, mais elas têm procurado”, disse.
       Douglas Miranda, coordenador Especial de Políticas de Diversidade Sexual da Sedpac, que representou no evento o secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania em exercício, Gabriel Rocha, afirmou que a população LGBT ainda está à margem da sociedade em várias políticas públicas. “O trabalho precisa ser olhado de uma maneira bem inclusiva, de bastante liberdade e de igualdade nesse processo do mundo corporativo. Estamos em um momento muito importante em Minas que é debater a empregabilidade de travestis e transexuais nesse cenário de desemprego, das dificuldades de organização do setor empresarial”, disse.
      A representante da OIT, Thais Dumet Faria, salientou a relevância  do evento, que reuniu empresas, governos, organismos internacionais e sociedade civil, para demonstrar a importância de se incluir as pessoas de maneira igualitária no mercado de trabalho. “Sem dúvida, a barreira de entrada no mercado de trabalho, de garantia de direitos, é o preconceito que ainda existe e é muito forte socialmente. Por isto, é tão importante um evento como esse”, enfatizou.
    O ex-ministro de Direitos Humanos do Governo Lula e ex-secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania, Nilmário Miranda, salientou que o papel do seminário é o de abrir as portas para a empregabilidade de pessoas trans. Tem melhorado pouco. Aqui em Minas, nós temos pelo menos duas empresas públicas que abriram as portas para o público Trans, que foi a Copasa e o BDMG. Nós queremos que elas sirvam de exemplo para as demais empresas privadas”, disse, acrescentando que 90% das travestis vão para a prostituição por falta absoluta de alternativas.
    A secretária de Direitos Humanos a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Débora Sabará, lembrou que só em 2017 foram assassinados 179 pessoas trans, a maioria com requintes de crueldade. “É todo um processo preconceituoso que foi criado em cima da nossa identidade trans. A gente tem pressa que as famílias entendam e não coloquem essas pessoas para fora de casa, que a escola garanta a presença delas em sala de aula, temos pressa para que o Suas (Sistema Único de Assistência Social) atenda à população trans, que a segurança pública entenda a complexidade da violência contra essa população e a gente tem pressa para o emprego. A nossa população está totalmente na prostituição, não por opção”, afirmou.
    O BDMG já abriu as portas do mercado de trabalho para o público trans. Segundo a gerente de gestão de pessoas da instituição, já foram contratados três estagiários trans. “Queremos continuar dando oportunidade para essas pessoas. Estamos vendo agora a possibilidade de contratar um menor aprendiz”, conta.

  1. Performance
        Durante o evento, o trans Vitor Fernandes de Souza Moreira, de 21 anos, fez uma performance dentro de uma cela, na entrada do auditório do BDMG. Segundo ele,  é uma forma de protesto já que o público trans é sempre visto como pessoa doente. “Para conseguir um emprego, para conseguir alguém que esteja ao seu lado como parceiro ou parceira, a gente está sempre dependendo dessa legalidade do outro. Então, é mais para mostrar esse corpo meio sem dono, esse corpo sem legalidade, que sempre precisa do outro”, disse.
        Graduando em artes visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vitor Fernandes considera que o machismo e outros preconceitos que ainda variam dele, ainda pesam bastante para o ingresso no mercado de trabalho.